"Amor, autoridade e a perene lição da Páscoa"

Com a devida vénia, transcrevemos um texto publicado no Semanário SOL (21.04.2011), da autoria de João António Pinheiro Teixeira (Teólogo):

Amor, autoridade e a perene lição da Páscoa

A PÁSCOA não é a evocação vaporosa de uma época distante. Ela é a novidade perene oferecida ao homem e inscrita no tempo.

Não é em vão que ela ocorre sempre na Primavera, quando a natureza se solta. E, quase sempre, em Abril, quando, entre nós, a liberdade se celebra.

O Evangelho, até no mais ínfimo pormenor, tem a preocupação de realçar tal novidade.

A referência que nele é feita ao «primeiro dia da semana» (Jo 20, 1) surge em nítido contraste com o dia anterior, o último dia.

No ocaso do último dia, respira-se morte. Já no alvorecer do primeiro dia, volta a despontar a surpresa da vida.

O SINAL da morte está removido. A pedra no sepulcro seria como um ponto final num texto. Afinal, o texto iria continuar.

Sucede que, num primeiro momento, a reacção é de alarme. Não se trataria de uma vitória da vida, mas do fruto de um cadáver (cf. Jo 20, 2).

São, então, avisados dois dos discípulos de Jesus: Pedro e João, duas personalidades e dois sinais. Pedro representa a autoridade, João simboliza o amor.


Pedro e João correm em direcção ao sepulcro
 Pedro sai com João rumo ao sepulcro. Ou seja, a autoridade não dispensa o amor na procura de Jesus.

Mas, a determinada altura, João antecipa-se. Na verdade, o amor chega sempre à frente e chega sempre primeiro.

Como refere o comentário de Mateos-Barreto, «corre mais depressa o que tem a experiência do amor, o que foi testemunha do fruto da Cruz».

De facto, na hora da morte, só o amor (João) esteve presente. A autoridade (Pedro) ausentara-se, retraída, Só o amor é capaz de vencer o medo.

JOÃO chega primeiro ao sepulcro. É pelo amor que se atinge a meta e se chega a Deus.

Só que, como reconhece S. Paulo, o amor também sabe ser paciente, também consegue esperar e, aspecto nada negligenciável, nunca é invejoso (cf. 1Cor 13, 4).

João vê o sepulcro vazio, mas não entra. Aguarda que Pedro venha. O amor respeita a autoridade. Até porque sabe que, na Igreja, a autoridade está ao serviço do amor.

Não se trata de um mero acto de deferência. É, sobretudo, um gesto de reconciliação.

É que, com as negações de Pedro (cf. Jo 18, 15-17.25), era a autoridade que vacilara, vacilara no amor. Agora, o amor dá uma nova – e definitiva – oportunidade à autoridade.

O amor é humilde. Sabe que a autoridade tinha negado Jesus, mas, por isso mesmo, deixa-a entrar em primeiro lugar para que, em primeiro lugar também, expresse o seu amor.

O AMOR é mesmo assim: uma sucessão de começos. A autoridade sente-se reabilitada e segura por correr atrás do amor.

Na Igreja de Jesus, a autoridade só faz sentido em função do amor. A autoridade não vale por si mesma. Ela só tem sentido através do amor, pela mediação do amor.

É o amor que aponta o caminho à autoridade. Sem amor, a autoridade perde o norte, a bússola.

A autoridade é necessária. Mas ela é apenas instrumental. Existe para tornar presente o essencial. E o essencial é o amor.”

(imagem retirada da internet)

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