A propósito do filme "Silêncio"

Há dias, tive a oportunidade e o privilégio de poder visionar, na companhia de elementos do Grupo de Jovens de Constantim, o filme “Silêncio”, drama histórico realizado por Martin Scorsese, e que se baseia no “best-seller” homónimo escrito, em 1966, pelo japonês Shusaku Endo. No final, conversámos sobre o mesmo.

Em pleno séc. XVII, dois padres jesuítas portugueses deslocam-se, incógnitos, ao Japão, à procura do seu mentor, Pe. Cristóvão Ferreira (interpretado por Liam Neeson), que teria apostatado, isto é renegado a sua fé em Deus. O filme decorre numa época em que o catolicismo tinha sido banido no Japão, e os cristãos que se mantinham fiéis eram perseguidos, submetidos a torturas indescritíveis e mortos.

É um filme intenso, perturbador mesmo, e que nos questiona sobre alguns aspetos da nossa fé em Jesus Cristo, e o amor aos irmãos. Trata, de modo muito particular, o aparente silêncio de Deus perante o sofrimento dos cristãos.

No filme há dois aspetos que mais me tocaram. Um, foi o modo como o autor aborda a questão da confissão de quem está sempre a cometer o mesmo pecado. Kichijiro era um japonês, que, facilmente, poderíamos apelidar de cobarde e traidor, e que sempre que renegava publicamente a sua fé em Jesus Cristo, procurava avidamente a confissão, para que Deus lhe perdoasse o mal feito; e o Pe. Sebastião Rodrigues (interpretado por Andrew Garfield) – mesmo “reclamando” - sempre o ouvia em confissão e o absolvia, enquanto que o Pe. Francisco Garupe (interpretado por Adam Driver) recusava. Mesmo quando Kichijiro denunciou o Pe. Sebastião Rodrigues às autoridades japonesas, este, apesar de já estar na prisão, e de não o poder ouvir em confissão, vendo-o no pátio da prisão com um olhar que denunciava arrependimento, estendeu a mão e absolveu-o em nome de Deus, Pai Misericordioso.

O outro aspeto foi ter sido “obrigado” a fazer uma reflexão sobre o que será melhor, mais belo aos olhos de Deus: aceitar o martírio pessoal, como o Pe. Sebastião Rodrigues estava disposto a sofrer (mas esta atitude seria para “maior glória de Deus”, ou para a sua própria glória?), ou aceitar pisar a imagem de Cristo, renegando publicamente a sua fé, para salvar da morte os irmãos que estavam a ser torturados?

O aspeto principal da última parte do filme é este mesmo: o Pe. Sebastião Rodrigues debate-se, constantemente, com questões e dilemas interiores, com o “silêncio de Deus” perante o sofrimento dos cristãos. Ele está preparado para defender os seus ideais e a sua fé em Jesus Cristo até ao fim, até à morte. Mas será ele capaz de apostatar (renunciar publicamente à sua fé) para salvar outros que estão a ser torturados com água quente ou queimados vivos, atados a feixes de palha, e continuar a viver com a sua consciência?

Penso que S. Paulo, na sua Carta aos Coríntios lança um pouco de luz sobre esta questão, quando afirmou, “e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” (1Cor 13, 3)

Só Deus, O único que vê no coração dos homens e mulheres, sabe quem é verdadeiramente apóstata, ou quem, exteriormente, “renega a sua fé em Cristo”, embora interiormente continue a acreditar n’Ele, como forma de salvar a vida de alguns dos seus irmãos.

Vale a pena ver.


José Pinto
Texto publicado no Jornal A Voz de Trás-os-Montes - 03.08.2017

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