Mensagem Quaresmal, no Ano da Fé

Caros Irmãos e Irmãs! Exorto-vos a viver a Quaresma, os 40 dias, antes da Páscoa, na obediência da fé que é a resposta à revelação de Deus. A Fé actua pela caridade e sem obras é morta, mas a caridade não é mera assistência humanitária, sem Deus. O maior bem a dar ao ser humano é o Evangelho. A Mensagem de Quaresma do Papa Bento XVI pede para “conhecermos o amor de Deus, por nele crermos” (1 Jo. 4,16). A Fé e a Caridade são resposta indivisa a Deus, tendo a caridade a primazia e a fé a prioridade, pois, “a fé precede a caridade mas só é genuína se for coroada pela caridade”. Na sua encíclica ‘Deus é Caridade’, o Papa aponta os objectivos: “ à natureza íntima da Igreja pertence o tríplice dever do anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), da celebração dos Sacramentos (leiturgia) e do serviço da caridade (diakonía). São deveres que se exigem mutuamente, sem os poder separar. Para a Igreja, a caridade não é só uma actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência” (n. 25).

1.- Deus revela-se e nós “conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele. Deus é amor: quem conserva o amor permanece com Deus e Deus com ele” (1 Jo 4,16). O amor do Pai e do Filho, no Espírito, produz a alegria de crer em Deus, pregando a Boa Notícia da Vinda e Ressurreição do Filho de Deus, que não podemos calar.

O Ano da Fé, nos 50 anos da abertura do Concílio Ecuménico Vaticano II, visa conhecer, viver e testemunhar a fé, animada pela caridade, aderindo a Deus, que se revela, em Cristo. Amor com amor se paga. O dom de Deus ajuda a crer e amar, a responder à Sua manifestação. Por sua natureza, o amor ou encontra iguais ou faz iguais. Configura-nos a Jesus, como diz Paulo: “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal.2,20).

O acto de fé, que brilha no Baptismo, início, porta e sacramento da fé, não termina em fórmulas, mas em Deus mesmo, como diz S. Tomás, e orienta-se para a Eucaristia, sacramento da caridade e coroamento da fé. Quem crê ama, deseja ver o Amado, que o atrai e conduz a amar Deus nos outros e os outros em Deus, fonte e origem do amor.

2.- A Quaresma é itinerário de conversão, nos Quarenta Dias, antes da Páscoa. Evoca os 40 anos de Israel e os 40 dias de penitência e oração de Jesus no deserto e prepara a celebração anual do Mistério Pascal, centro da fé e salvação. É tempo de exame de consciência e fé no mistério da Morte e Ressurreição de Cristo, do qual a Eucaristia é memorial perene. A Fé supõe ascese, empenho, imitação de Jesus, que se humilhou, obedeceu, não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em redenção e actua pela caridade, leva ao jejum, à oração e à esmola e solidariedade, semeia a alegria e foge ao endeusamento e esbanjamento dos bens materiais, que são meios e não fins.

O Ano da Fé quer aumentar a fé, evocar e conhecer o Concílio e o Catecismo da Igreja Católica. Ele ocorre em plena crise económica, resultado da profunda crise de valores, da indiferença e desprezo de Deus e dos seus mandamentos. O eclipse de Deus e o hedonismo conduzem à perda do espírito de sacrifício e da consciência dos limites, ao esbanjamento, ao lucro fácil e desonesto, ao desprezo da solidariedade e desrespeito da dignidade humana. Ora, Deus destinou os bens da terra aos seres humanos e todos devem usufruir deles. Mas, isso não acontece, sem solidariedade, verdade, justiça e respeito da liberdade. Perante as grandes desigualdades entre ricos e pobres, que são um escândalo, o Papa Bento XVI denunciou o capitalismo selvagem, desumano, sem piedade e solidariedade. Deus não tolera que o pão falte aos pobres. Recordemos a sábia advertência de Jesus aos discípulos: “dai-lhes vós de comer”(Mc. 6,37).

 
3.- Ao cristão é pedida partilha de bens, a solidariedade fraterna e a abertura ao outro. Os Peditórios, para os fins estabelecidos, que a Igreja ordena fazer, nas paróquias, como o Contributo Penitencial Quaresmal ou Bula da Cruzada, sob tutela do bispo, são modos eclesiais, organizados, de cada um contribuir, para as necessidades da Igreja. Mas, para além desta obrigação eclesial, ordinária, todos devem, guiados pelo Espírito, praticar a renúncia e destinar o supérfluo aos pobres, seguindo a orientação do Bispo, que coordena o serviço da caridade, na Diocese e diz o destino a dar a essa renúncia.

Na Carta Apostólica, sob forma de Motu Proprio, “Intima Ecclesiae Natura”, Bento XVI recorda que “o Bispo diocesano exerce a sua solicitude pastoral, mediante o serviço da caridade, na Igreja particular, que lhe está confiada, na sua qualidade de Pastor, guia e responsável de tal serviço” (art. 4, § 1). “O Bispo cuide, em cada paróquia da diocese, da criação do serviço da “Caritas” paroquial ou análogo, que promova também a acção pedagógica, no âmbito da comunidade educando para o espírito de partilha e caridade autêntica. Caso seja oportuno, tal serviço pode ser constituído para várias paróquias do mesmo território. Ao Bispo e ao pároco respectivo compete assegurar que, junto, com a “Caritas”, possam coexistir e desenvolver-se outras iniciativas de caridade, no âmbito da paróquia, sob a coordenação geral do pároco” (art .9 § 1 e 2).

A Renúncia deste ano reverte para o Fundo Social Diocesano, em prol dos pobres e dos famintos, gerido pela Comissão da Pastoral Social e da Mobilidade, em união com a Caritas, as Conferências de S. Vicente de Paulo, os Centros Sociais Paroquiais e outras instituições. Que a Quaresma nos conduza à moderação, no uso dos bens materiais, e a evitar esbanjar o que faz falta aos pobres, pondo de parte o supérfluo, para ajudar os necessitados, pensando sempre em quem não tem o mínimo necessário.

Grato, pelo que for feito aos pobres de bens materiais e espirituais, sem esquecer os que têm fome de amor e conforto e de receber o Evangelho de Cristo, Vos saúdo e, em nome de Cristo, imploro, para todos, as bênçãos e consolações de Deus, que nos pede o desafio de n’Ele crer e de O reconhecer, encontrar e amar, nos irmãos necessitados.

Festa das Cinco Chagas do Senhor.
Vila Real, 7 de Fevereiro de 2013.
+ Amândio José Tomás, bispo de Vila Real.

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